Brigada Ligeira Estelar — Triângulos Amorosos

Triângulos Amorosos são parte dos animes de robôs gigantes: não poderiam faltar em Brigada Ligeira Estelar! Sentem-se e curtam a novela...

Brigada Ligeira Estelar é um cenário inspirado nas clássicas animações de ficção científica em geral e robôs gigantes em particular. Romance faz parte dessa equação e em nome de uma experiência mais imersiva no gênero, não pode ser ignorada por completo em sua mesa. Podem acreditar.

Há muita gente que considera anti-romântica a sistematização de temas românticos em um conjunto mecânico de regras e prefere estimular uma postura mais interpretativa para esse tipo de situação caso o jogador esteja interessado. Mas filosofia de jogo é filosofia de jogo, e eu pessoalmente tenho uma postura simples quanto a isso: parte importante do papel do mestre reside em colocar obstáculos no caminho do personagem jogador para que este as supere, sejam interpretativos, sejam mecânicos.

Assim, romance na mesa de jogo para mim ― e você que me lê pode pensar diferente, é justo ― tem as seguintes funções:

1) motivar um personagem: não é preciso matar o interesse amoroso, embora isso possa ser útil; mas o vínculo do protagonista com o personagem pode servir para atrelá-lo à trama do mestre ― alguém que mergulha em uma longa missão tendo como objetivo o direito à mão de seu interesse, por exemplo.

2) complicar tudo: pense na quantidade de dilemas que podem ser incorporados, como ter um arquiinimigo que por acaso seja o irmão de seu interesse, ou a oferta de um casamento e consequente aliança que poderia resolver todos os seus problemas, mas você tem outra pessoa em sua mente e isso é um problema.

3) fazer um personagem agir de forma estúpida, adicionando um complicador à cena (ver a desvantagem Apaixonado, de A Constelação do Sabre vol. 2, página 84). A aventura A Face de Stéphanos (Parte 1 AQUI, Parte 2 AQUI, Parte 3 AQUI e Parte 4 AQUI) pode ser um bom exemplo do uso desse recurso em mesa.

4) para trazer novos personagens à trama, direta ou indiretamente ligados à situação: não apenas o interesse amoroso, mas familiares, rivais ou pessoas ligadas a ele de uma forma ou de outra. É uma oportunidade de arejar o elenco, mesmo se o romance não der em nada.

Isso sem falar no próprio acréscimo do personagem, se for direta ou indiretamente uma fonte de problemas. Os personagens não surgiram para o mundo no momento em que se encontraram ― um interesse amoroso tem uma vida pregressa, afinal.

Recentemente, tivemos um artigo sobre os Social Links de Persona 4 para 3D&T (que pode ser lido AQUI) e isso abriu possibilidades interessantes. No caso, para um dos elementos mais tinhosos dos animes japoneses de robôs gigantes: os Triângulos Amorosos.

Sim, eu sei que é nisso que vocês estão pensando.

Essencialmente, você tem um Relacionamento com uma pessoa mas outro personagem, provavelmente um coadjuvante, também tem um Relacionamento com ela ― e com interesses comuns porém conflitantes, alguém vê o outro como o oponente. Outra possibilidade é que você tenha um Relacionamento com duas pessoas e elas estejam em disputa entre si. Em todo caso, temos uma disputa.

Essa é a fórmula mágica do triângulo amoroso, que galvaniza o nosso público que diz não gostar de novela na televisão mas fica tomando partido quando isso aparece em um desenho animado e se metendo em imensas discussões no Facebook sobre o assunto. Em termos de jogo isso é simples:

1) Estabelece-se o alvo da disputa (o pivô).

2) Os vértices irão agir no sentido de agradar o pivô, ganhando de +1 a +3 PRLs do mestre caso tenham sucesso ― ou, caso a desagradem, perdendo pontos de PRL de –1 a –3. O mestre deveria gerenciar ao longo da campanha o quanto a pontuação dos dois vértices correspondem a esse placar flutuante de pontos, de cada lado.

3) Cada 10 pontos no placar flutuante fazem o Relacionamento subir de nível ― ou descer, caso sejam 10 pontos negativos. Note que o pivô não é um marionete, também tem sua ficha e suas próprias vontades.

4) PEs são proibidos a partir do começo da disputa. Os personagens só poderão avançar a pontuação com os PRL bônus!

5) A gravidade de atos mal pensados pode nivelar ou zerar a disputa. Caso os dois vértices passem do ponto, um pivô de saco cheio pode declarar a disputa zerada. Nesse caso, acabou para os dois. Outra possibilidade menos drástica é que ambos os vértices passem a ter seu Relacionamento com o pivô nivelado em 1 e eles terão que começar tudo de novo ― agora com um redutor de –1 até que cada um consiga ter um nível 2 de Relacionamento com seu alvo de interesse novamente (e sem PEs, lembram?). Cabe ao mestre julgar isso sem passar a mão na cabeça de ninguém.

6) O vencedor é quem, tendo já chegado aos 5 pontos (pensem na agonia interna do pivô caso os dois vértices cheguem a esse estágio) chegar ao equivalente a 6 pontos de Relacionamento com o Pivô primeiro. O mestre deveria fazer isso chegar dramaticamente ao perdedor ― ele testemunhando a cena de beijo, etc. Caso isso aconteça, seu Relacionamento é quebrado. Caso o vértice queira se manter em bons termos com o casal e aceitar diplomática e honestamente a derrota, ele pode estabelecer gratuitamente um Relacionamento +1 tanto com o pivô quanto com o vértice vencedor, concedido pelo mestre. Mas ele pode também dar o Relacionamento como acabado. Fiquem tranquilos, isso vai levar muito tempo para acontecer.

Repararam que essa mecânica não exclui a parte interpretativa — na verdade, a estimula — porque os personagens jogadores dependerão dela para ganhar seus PRLs bônus?

Recomendamos que os dois vértices não sejam personagens protagonistas ― mas caso isso aconteça e gere dissensões na mesa de jogo, o mestre pode se valer do poder sobre o coadjuvante pivô para acabar com os confrontos. Curiosamente, isso pode gerar uma amizade entre dois personagens chutados ― e como relacionamentos não precisam necessariamente ser amorosos…

Lembrem-se sempre: romance é um elemento de apelo popular, mas também é volátil e explosivo; mal conduzido, pode causar sequelas graves na sua trama. Tenha isso em mente. Não o deixem tomar conta da história — até porque temos outros jogadores e outras tramas a conduzir.

Agora, divirtam-se com a novela ― mas não se esqueçam dos robôs gigantes!

Arte de Simone Beatriz.

Alexandre Lancaster • 15/12/2017

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