O Enigma das Arcas, Ato XXV — Além do Portão Sudoeste

O grupo de Enemaeon enfim chega na maior cidade do mundo! Porém, um bando de desajustados como esse não poderia entrar em Valkaria pela porta da frente... 

armageddon-felrond-enigmaAté agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato malignoPara se livrar dessa condição, partiu em jornada para salvar a própria alma.

Nessa busca, ele conta com a ajuda de alguns companheiros igualmente terríveis: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” , o elfo bêbado Felrond, o capitão pirata Moranler Silverdall e um guerreiro morto-vivo chamado Villvert de Gallien.

Após uma rápida e providencial parada em Ridembarr, a terra natal de Enemaeon, os três companheiros partiram em direção à capital do mundo e finalmente chegaram em Valkaria, o lugar pelo qual onde todas as grandes aventuras passam!

Ato XXV — Além do Portão Sudoeste

A cidade de Valkaria cresceu desordenadamente ao redor da estátua de uma suposta deusa homônima feita de pedra. Tal fato não seria sequer digno de nota se não fosse por um detalhe de importância considerável: o tamanho dela. Uma verdadeira montanha curvilínea com mais de meio quilômetro representando uma mulher nua de joelhos, feita de mármore acinzentado, perfeitamente liso e polido de forma impossível. Os anões, maiores conhecedores do trabalho na rocha deste mundo, vivem dizendo que mesmo que todos os artesãos de Doherimm passassem dia e noite lixando a pedra com trapos por mil anos não conseguiriam um resultado melhor.

Felrond não sabia o que era um doherimm, mas sempre considerou aquilo como algo digno de nota, e agora explicava entusiasmado para o Guerreiro tudo o que sabia sobre a estátua. O cavaleiro morto era de Yuden, o reino vizinho, e não ligava para o símbolo máximo da igreja de Valkaria, considerando-a meramente uma imagem cultuada por mulheres e pelos guerreiros afeminados de Deheon. Mas o elfo adorava Valkaria. Dizia que era a protetora dos errantes, que recebia todos os que não tinham pátria sob sua sombra.

Ninguém sabe quem foi o povo que a construiu, pois ela já estava ali quando os migrantes do sul chegaram. Deles, não havia nem rastro. Na época, foi considerada um sinal divino e os humanos a aceitaram como símbolo. Desde então muitos atribuem a ela a criação da humanidade. É o que os clérigos afirmam, também. Mas o discurso varia. Ao ser encontrada por um povo sem pátria, tornou-se também protetora dos viajantes e dos aventureiros. Quando a cidade começou a crescer e engordar, aceitaram também que Valkaria era a deusa da ambição, da fartura e do desenvolvimento. Haviam ainda os que devido a nudez da imagem a ligavam aos ritos de fertilidade e ao sexo. E a ladainha seguia.

Convenientemente, Valkaria era deusa de qualquer coisa que os clérigos quisessem. E por isso o culto a ela crescia em Deheon. Mas apenas lá. Além do reino era uma deusa muda e sem qualquer poder. Seus clérigos são considerados charlatães que empregam magia e outros itens diversos comprados com ouro para pregar. E uma deusa que não responde às preces dos devotos é uma deusa fraca.

— Mas a cidade cresce mesmo assim — observou Enemaeon apontando para a última muralha construída há menos de dez anos — A cada década e meia os muros são derrubados e as pedras levadas para frente para abraçar as novas ruas, casas e vilas. E os peregrinos e migrantes continuam chegando.

— Quase um milhão de pessoas! — sorriu Felrond desviando-se facilmente da massa humana que trafegava em volta mas que abria caminho para a passagem do grifo. Mesmo velho e sem asas, era uma criatura impressionante — E na época do festival da deusa milhares vem para cá, provindos das cidades vizinhas ou junto com Vectora e a semana inteira come-se bem, bebe-se muito e a farra vara as noites.

— E depois recolhe-se o que sobrou e toca-se a vida — falou o mago — Muitos dos que vieram para o festival ficam, e quase nenhum prospera. Os que tentaram a sorte, os que perderam tudo, os doentes, os mendigos, estes Valkaria adota. Se não fosse o enxame de clérigos que seguem os peregrinos em procissão, tudo isto já teria apodrecido com as pragas. Mesmo assim, como não há plantações suficientes tampouco um rio que corte a região, a fome e a sede são uma constante.

— Como conseguem a água? — inquiriu o Guerreiro estudando inconscientemente as vulnerabilidades do lugar.

— Alguns poços, alguma magia. Mas a maior parte vem de aquedutos que a trazem de longe até aqui. Percebe o problema de se viver neste lugar? Para um capitão de tropas, deve parecer óbvio. E percebe a ironia de se dar ao trabalho de erguer muralhas em volta desta cidade-monstro?

— Um cerco os deixaria de joelhos em poucos dias. Bastaria romper o abastecimento de água e todo o lugar viria abaixo. De qualquer forma, um ataque à Valkaria não começaria de fora. Ela é como um gigante de entulho, um monstro devorador de lixo. Deve ser morta de dentro pra fora.

— E infiltrar-se é fácil — sorriu Enemaeon concordando — Há guardas e vigias. Mas há gente demais e ordem de menos. Valkaria estaria supostamente protegida por causa dos aventureiros que vêm e vão todos os dias. Mas aventureiros são pessoas sem raízes que partem e fogem quando a coisa fica complicada demais. Creio que este milhão de pessoas que vivem aqui não seriam capazes de sustentar uma mísera parede de escudos, quanto mais enfrentar um exército. Escreva o que eu digo: um dia, um exército irá marchar sobre Valkaria. E ela será tomada, quer o povo aceite, quer não.

— Não sei por onde as pessoas vão fugir, mas os ratos irão escapar pelo portão sudoeste — sorriu Felrond apontando para o lugar em questão.

O portão sudoeste era o menos protegido da cidade, para dizer o mínimo. Ficava em uma das extremidades mais obscuras, fazendo fronteira com a Favela Goblinoide e um matagal ralo de árvores finas, retorcidas e inúteis que nem os goblins se prestavam a cortar. Ali, sob um arco de madeira enegrecida, é que os golpistas, ladrões e aventureiros enveredavam através das muralhas tanto para entrar em Valkaria quanto para se evadir dela. Era também onde os mais pobres dentre os miseráveis apinhavam-se atrás de trabalho ou esmola.

— E por falar em ratos… — murmurou Enemaeon mais para si do que para qualquer outro. Apeou do cavalo chapinhando na lama escura e no mato pisoteado até um local próximo onde, sob uma tenda miserável, um homem velho cego e sem pernas, com apenas alguns trapos sobre o rosto, estendia a mão nodosa buscando caridade. O idoso moveu o rosto de lado, mexendo as orelhas encarquilhadas para tentar ouvir entre a balbúrdia no entorno. Felrond e o Guerreiro aproximaram-se igualmente, mas não desceram das montarias. Estavam curiosos quanto aos motivos do mago, e por isso se calaram e esperaram.

— Uma esmola, pelos deuses, para um velho cego e faminto — arquejou ele, a voz arranhada e sem ânimo. A falta de dentes permitia que a língua escapasse através dos lábios volta e meia, tornando as palavras um tipo de chiado molhado. Enemaeon não respondeu, aguardando. Segundos depois, se esquivando agilmente da multidão, a gata preta que o seguiu através de metade do continente ressurgiu. Aproximou-se e passou a se enroscar nas pernas dele enquanto ia e vinha coçando o próprio pelo. O mago sorriu e a recolheu do chão sujo.

— Quem está aí? — pediu o velho — Por favor, eu não posso ver, mas posso ouvir. Sei que há alguém aqui.

— Sou apenas um velho conhecido. Um amigo de longa data. — falou Enemaeon por fim, e ao som daquela voz, o velho pareceu ter sido atingido por um soco. O mago deu mais um passo e puxou o lenço que cobria os olhos do mendigo, revelando uma cicatriz horrenda e duas órbitas sujas, onde dezenas de pequenos vermes escuros presos na carne se agitavam em movimentos caóticos, incomodados com a luz. Ele tentou esconder as marcas, mas Enemaeon o agarrou pelo pulso afastando a mão suja da fronte — Ainda não, Matias. Preciso que você olhe mais uma vez.

— Não está exagerando um pouco? — questionou Felrond. Recebeu um olhar gelado de volta do necromante, que apertando o pulso do velho com ainda mais força, o fez arquejar de dor.

— Isto é apenas um cumprimento de velhos camaradas, não é verdade? — perguntou ele. Em resposta, o velho começou a balbuciar em um idioma diferente e Enemaeon largou imediatamente seu pulso e enfiou os dedos pela boca desdentada até a goela, fazendo-o arquejar e vomitar. Alguns dos que passavam fizeram menção de aproximar-se para defender o maltrapilho, mas o Guerreiro puxou a espada e os intrometidos resolveram que a briga não valia a pena.

— Se tentar algo assim novamente, lhe arranco um braço desta vez — rosnou limpando os dedos sujos de saliva e vômito no tecido da tenda. Felrond também havia descido do lombo do grifo e se colocou ao lado de ambos, perguntando:

— “Desta vez”? Foi você que fez isso com ele?

— Com as pernas, sim. — respondeu Enemaeon perder o velho arquejante de vista. O infeliz ainda tentava parar de vomitar e tossir — Mas os olhos são coisa dele. Ele próprio os perdeu depois de olhar longe demais. Pobre idiota. Arton está além de seu alcance, mas ainda pode ver o inferno que o queimou; e é isto que eu quero que ele faça.

Os vermes dentro das órbitas vazias tremeram e se enterraram ainda mais, deixando apenas inúmeros pontos pretos cheios de pus em meio aos buracos vazios. Felrond fez uma cara de nojo e dúvida tão óbvia que, após suspirar, Enemaeon explicou:

— Matias era um demonologista, um mago que lidava com demônios. Indiretamente, foi ele que me guiou até Merodach, e é o culpado por agora eu não ter um coração.

— E você é o culpado por minha ruína, lau’kadosha! Keptus danizia ptla

A frase ficou incompleta. Valendo-se do cajado, Enemaeon atingiu Matias no rosto, e o velho aleijado caiu inconsciente no chão lamacento, um fio de sangue escorrendo do corte no supercílio.

— Felrond, me ajude. Vamos colocar essa carcaça sobre o cavalo.

— Porquê eu? — reclamou Felrond agarrando o sujeito pelos tocos das pernas — Não acredito que você matou um velho aleijado! E um que você mesmo aleijou!

— Velhos somos nós. Este monte de estrume mal tem vinte e cinco anos — rosnou Enemaeon levantando-o pelas axilas com dificuldade e o jogando descuidadamente sobre a cela — Ele trocou a juventude por poder. E essa juventude lhe faltou na hora de correr de mim. Nada me tira da cabeça que ele trouxe Merodach de propósito para acabar comigo.

— Você tem alguma prova disto? — perguntou o Guerreiro do alto do cavalo negro, embainhando a lâmina escura — Não que eu me importe, é claro.

— Nenhuma que faça algum sentido — confessou o necromante — Mas desde que aconteceu, sou punido com dor e agonia sempre que cometo um ato, digamos, questionável. E não senti um pingo de remorso, dor ou culpa enquanto esfolava a carne dos ossos desse saco de merda profano. Para mim é prova suficiente.

— Vamos levá-lo até onde? — questionou o elfo, voltando para o grifo que arranhava as patas na grama antes de voltar a caminhar pela imundície do portão.

— Tudo ao seu tempo — respondeu Enemaeon, abaixando a cabeça instintivamente ao passar sob o arco do portão. O Guerreiro também tocou o punho da espada, por superstição ou prudência. O mago suspirou o ar fétido de fumaça, gente suada e bichos mortos, puxou as rédeas para a esquerda, abandonando a via principal e se dirigiu até uma paliçada interna onde dezenas de cabeças de goblins jaziam expostas, as bocas escancaradas e os olhos devorados pelos corvos.

— Primeiro, vamos vender meu cavalo.

— Na favela? — Felrond ergueu uma sobrancelha. Não odiava aqueles goblins. Apesar de ser elfo e por Lenórienn ter caído sob as lanças daquelas criaturas, não conseguia associar os servis goblins de Valkaria com os selvagens goblinoides do sul. Comparados àqueles, repletos de enfeites de osso e cicatrizes de guerra, considerava os bonachões escravos dali inofensivos e até divertidos — Logo na favela?

— É onde a escória se reúne. Nós somos escória. E é da escória que nós precisamos agora, mais do que nunca.

E entraram. No labirinto de velhos barracos remendados com paus e lixo. Alguns sorriam, outros fugiam, mas Enemaeon sabia que tudo isso era apenas uma fachada da verdade. Aquele era o domínio deles. Ali, eles eram os monstros. Olhos amarelos lhes observavam curiosos conforme passavam entre as ruelas e casebres da Favela dos Goblins.

O caminho para Valkaria é longo, mas a jornada até aqui já nos mostrou inúmeros lugares do sul de Arton. Caso ainda não tenha começado a ler, é um bom momento pra acompanhar o Enigma das Arcas desde o início!

Armageddon • 14/12/2017

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