O Enigma das Arcas, Ato XXV — A Favela dos Goblins

Só há um lugar em Valkaria para um bando problemático como o de Enemaeon e seus companheiros conseguirem auxílio: o que será que eles pretendem na maior favela de Arton?

armageddon-felrond-enigmaAté agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato malignoPara se livrar dessa condição, partiu por Arton tentando salvar a própria alma.

Nessa busca, ele conta com a ajuda de alguns companheiros igualmente terríveis: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” , o elfo bêbado Felrond, o capitão pirata Moranler Silverdall e um guerreiro morto-vivo chamado Villvert de Gallien.

Após uma rápida e providencial parada em Ridembarr, a terra natal de Enemaeon, os três companheiros partiram em direção à capital do mundo e finalmente chegaram em Valkaria, o lugar pelo qual onde todas as grandes aventuras passam! Porém, um bando como esse só poderia ter um único destino na capital do mundo…

Ato XXVI — A Favela dos Goblins

Mesmo o homem mais miserável, doente e destituído de posses de Arton seria rico se comparado a um goblin em Valkaria. Estes mal têm direitos perante as outras raças, tampouco dignidade. Vivem de cabeça baixa, olhar humilde, costas curvadas em sinal de respeito. Estão sempre prontos a realizar o mais indigno dos trabalhos por comida ou algum pertence sem valor. Milhares deles varrem Valkaria dia e noite em busca de lixo, entulho ou qualquer tipo de sobra. São goblins que esvaziam as latrinas dos casarios, que tiram carrapatos do gado e esfregam chiqueiros nos abatedouros.

Poucos vêem alguma utilidade real neles além de mera mão de obra barata e descartável. Outros ainda menos numerosos discursam contra a permanência de tantos deles dentro dos muros. A maioria simplesmente os ignora. Afinal, são como ratazanas, ou pombos. Fogem sempre que um humano se aproxima demais, temerosos. Regressam ao monte de entulho quando estes passam. Morrem às centenas, nascem aos milhares. Ninguém liga. São marginalizados, criaturas indignas de pena ou atenção. Mas a existência deles é conveniente, então eles prosseguem, crescendo em número e devorando cada metro quadrado da área designada à sua morada durante a noite: a Favela dos Goblins.

A favela é feita de restos de madeira, alvenaria, palha e entulho. Fede a urina, bosta e carne podre. É sempre úmida, gotejante, coberta de limo e envolta em fumaça. As vielas são estreitas, os moradores sujos, doentes e desprovidos de qualquer senso de higiene. O fato de não haver água suficiente sequer para beber apenas piora a situação. Tudo o que é descartado pela cidade é recolhido e levado até ali para construir mais daqueles casebres que fazem vez de moradia. Invariavelmente, procurados, loucos ou aqueles que perderam tudo o que tinham também se mudam para lá, mas estes são raros. Em geral, a favela é dos goblins.

Desta forma, raramente algum membro de outra raça em plena faculdade de seus atos adentra os limites da favela durante o dia. Nestas ocasiões, todos sorriem, escapam ou apenas observam a uma distância segura para evitar problemas. Entrar num lugar como este à noite seria algo totalmente diferente. Estranhos dentro da favela após o anoitecer em geral recebem como cortesia um virote nas costas ou uma faca sorrateira na garganta.

O sol do meio-dia queimava o rosto de Enemaeon quando adentrou um campo de terra batida no alto da colina puxando o cavalo pelas rédeas. Meia dezena de goblins estavam sentados próximos, compartilhando um rolo de ervas alucinógenas enrodilhadas num maço grosseiro que fumavam. Outros tantos se divertiam bebendo e jogando dardos enquanto os mais jovens disputavam um jogo com uma bola improvisada com panos velhos enrodilhados e amarrados com as tripas de um porco. Estes, porém, silenciaram ao notar a chegada de Felrond sobre o grifo e do Guerreiro no alto do cavalo preto que bufava.

Um estranho silêncio permeou o entorno. O mago passou as rédeas para Felrond e se dirigiu aos fumantes. Um deles era um hobgoblin, um goblin gigante. Tinha quase dois metros e faltava-lhe um braço. O peito nu ainda era forte, apesar da barriga proeminente e manchada pela sujeira acumulada. Acompanhavam com atenção cada passo dos entrantes e era possível sentir a tensão crescente entre eles. Alguns levaram lentamente às mãos até as costas, procurando armas ocultas sob as roupas. Enemaeon fez uma breve reverência, antes de pronunciar algumas palavras usando a língua goblinoide:

Groduk abastro triufut — grunhiu o mago com certo esforço. Eles riram, achando graça da tentativa. O próprio também riu. Conhecia um pouco do idioma dos goblins, mas na favela usavam um dialeto próprio e carregado. De qualquer maneira, falar na língua deles era crucial agora. Sabia muito bem que todos ali sabiam o valkar, a língua humana, mas em geral os goblinoides se descontraíam quando alguém tratava com eles no próprio idioma. Provava que ele já havia estado ali outras vezes. A conversa prosseguiu até que, apontando para Felrond, o hobgoblin falou:

Prak‘quiessir, groduk trako.

Agora o grupo explodiu em gargalhadas e as mãos voltaram a ficar visíveis. O Guerreiro era o único que se mantinha sério, e até mesmo Felrond sorriu de leve, apesar de saber que era motivo de troça por parte daqueles desgraçados. Tudo fazia parte do jogo, enfim. Mais importante do que a dignidade perante um bando que raramente viveria muito mais, era cumprir os intentos do grupo naquela tarde antes dos portões serem lacrados. O hobgoblin maneta era o mais falador e conversou com Enemaeon por algum tempo. Se levantou, deu uma longa tragada antes de passar o cigarro adiante e soprando fumaça pelo nariz, avançou até o cavalo, abrindo-lhe a boca e examinando os dentes. O animal pareceu não gostar e ameaçou morder o goblin. Ele recuou a mão depressa, resmungou alguma coisa, e Enemaeon riu.

— O que diabos estão falando? — perguntou Felrond se abaixando para ficar na mesma altura do mago que do solo acariciava a crina do cavalo branco.

— Ele comentou que não pode perder a outra mão porque precisa dela para… se divertir sozinho — revelou o mago, indiferente — O nome dele é Crouch e perdeu esse braço numa luta contra um elfo. Mas isso foi há muito tempo.

— Sei que vou me arrepender de perguntar, mas qual foi a piada que fizeram às minhas custas antes?

Enemaeon olhou de soslaio para Felrond e com um dar de ombros explicou: — São apenas vulgaridades. Ele contou alguma coisa em tom de ameaça sobre ainda usar os cabelos daquele elfo para se limpar depois de cagar e sugeriu usar os seus para isso. Respondi que também usávamos cabelo de elfo, mas que você estava ficando careca e por isso precisamos vender o cavalo. Para comprar outro elfo, no caso.

— Sem ofensas, magrelo — falou Crouch por sua vez usando o valkar com um sotaque tão forte que tornava difícil compreender as palavras — É raro ver alguém do povo esnobe entre goblins.

— Também não esperava encontrar um hobgoblin na favela — comentou Enemaeon — Achei que apenas goblins viviam aqui.

— A cidade é grande. — justificou Crouch com um dar de ombros — Tem muita coisa estranha escondida em Valkaria. Basta saber onde procurar.

— Pois eu não ligo para o tipo de cara que vocês tem. Debaixo desta crosta de sujeira, somos todos iguais agora — respondeu Felrond com um meio sorriso — Lenórienn é passado. Hoje fodemos, cagamos e bebemos à saúde do Reinado.

— E que Thormy apodreça junto conosco — gargalhou Crouch. Se voltou para Enemaeon e para os negócios — É um belo animal este seu. Pagaria até trezentos tibares por ele.

— Ambos sabemos que ele vale o triplo — respondeu o mago por sua vez. Crouch estava prestes a contra-argumentar quando foi interrompido por Enemaeon: — Entretanto; em vez de perdermos longas horas discutindo sobre o preço de uma égua que poderia ser vendida com muito mais segurança e lucro para alguém fora da favela, eu lhe darei este pangaré de bom grado em troca das informações que necessito, além de um pequeno favor.

— De que tipo de informação estamos tratando? — perguntou o goblinoide agora mais cauteloso — Algumas delas valem muito mais do que o preço de um bom animal. Como o meu próprio crânio que não fica bem pendurado num poste.

Havia uma insinuação de dúvida no ar, tanto de Crouch quanto dos demais goblinoides próximos. Dúvida esta que deveria ser sanada rapidamente:

— Não sou da milícia, tampouco tenho algum interesse em Valkaria neste momento — explicou Enemaeon — E não se trata de nenhuma armadilha. A cidade é terreno hostil para mim e quanto antes partir dela, melhor. Mas, para tanto, preciso de ajuda.

— Diga então o que quer — falou o goblin que não estava disposto a rodeios neste caso — Dependendo do que for, vou decidir se é mais seguro trocar o cavalo pelo que sei ou matar os três e ficar com todos os animais em vez de apenas um.

— Gostaria que guiasse a mim e ao meu grupo até a casa de Emengarda — uma pausa era necessária, já que só agora viria a parte mais difícil do pedido — E precisaria muito me encontrar com o Herói.

— Isso está fora de cogitação — bufou Crouch cuspindo de lado — Não quero nada com o Herói. Levar problemas para ele seria o mesmo que mijar na cara de um paladino virgem de sessenta anos. Um tipo de sacrilégio.

— Não quero arrumar problemas nem para ele tampouco para você. Guie-nos até a casa de Emengarda e encontre o Herói. Diga a ele que… — Enemaeon olhou entorno e se aproximou um pouco mais do hobgoblin, falando em tom de confidência — Diga que Furta-Corpos está na favela. Se ele decidir que não vale a pena conversar comigo, então não irei insistir nisso. Lhe pago uma bebida só por tentar.

— Eu poderia simplesmente…

— Você poderia, sim, mas não acho que vá me trair assim agora — o mago estendeu a mão buscando selar o acordo com um cumprimento definitivo — Vamos lá, Crouch. Lhe dou este voto de confiança. E fico lhe devendo um favor.

Mais alguns segundos de hesitação e então o hobgoblin cedeu. Agarrou o cordame do cavalo branco, trancou a rédea com os dentes para liberar a mão única e apertou com força a de Enemaeon. Com um gesto, outros dois goblins se aproximaram e retiraram Matias da sela, colocando-o no lugar de Felrond, que desceu do grifo. O goblin começou a puxá-lo através da pracinha até o local onde o grupo de desocupados fumava. Amarrou a égua firmemente num galho baixo e com uma advertência final no idioma goblinoide, chamou o trio para que o seguisse colina acima.

— Que merda é essa de Furta-Corpos? — perguntou Felrond, arrependendo-se logo em seguida por imaginar até onde as explicações iriam lhe levar — Sabe o que mais? Esquece, prefiro não saber. Definitivamente, é preciso estar completamente bêbado pra conseguir conviver com você.

(***)

A casa de Emengarda ficava nos fundos de um beco imundo e repleto de lixo, num lugar impossível de ser localizado a não ser que você fosse um goblin ou que já o tivessem guiado até ali por algum outro cliente pelo menos uma vez. A porta única era baixa e dela pendia um pequeno lampião coberto de tinta vermelha que jogava luzes rubras na sujeira do entorno. Havia dois goblins dormindo abraçados e com o rosto na lama num canto, e um bugbear gordo com dentes enegrecidos de braços cruzados sentado diante da entrada. Um cano esverdeado pelo limo gotejava lentamente ao lado, o líquido viscoso caindo num escoadouro improvisado coberto de pedras.

— Suma daqui, Crouch — resmungou o bugbear mascando fumo — Dona Emengarda não quer saber de você. Menos ainda de alguma coisa envolvendo humanos ou o povo esnobe.

— Não quero entrar, Druko. O combinado foi trazê-los até aqui. Eles que lidem com a hospitalidade daquela porca cheia de bichos de agora em diante.

— Obrigado desde já, Crouch — agradeceu o mago com o rosto inescrutável — E por favor, não esqueça de meu outro pedido. É muito importante.

O hobgoblin resmungou alguma coisa, apresentou o dedo do meio da mão única à Druko e se afastou pelo caminho que ladeava o velho barraco. Não precisou andar muito para desaparecer numa outra curva baixa, se esquivando de cordas repletas de trapos, galinhas e um cão que dormia estendido no chão. Enemaeon se apoiou no cajado e fez menção a afastar o grandalhão do caminho, coisa que o mesmo evitou facilmente.

— Só goblins — rosnou Druko.

Enemaeon suspirou, firmando o cajado no chão e empinando o corpo tentando parecer algo mais perigoso do que o homem arruinado que era:

— Há alguma forma de convencê-lo de que nossa entrada na residência de Emengarda é crucial e o faremos de qualquer maneira, quer você tente nos impedir ou não?

— Você já sabe a resposta, magrelo. Suma já daqui e talvez possa manter os dentes nessa boca murcha.

— Este é um privilégio do qual você acabou de abrir mão — lamentou Enemaeon se afastando um passo. Um segundo depois, o punho do Guerreiro cortou o ar, atingindo a cara de Druko em cheio. O bugbear desabou para trás, levando parte da precária portinhola do casebre consigo. Felrond murmurou impropérios ao recolher Matias do alto da sela enquanto o mago forçava o que restou da porta.

— Eu falei sério antes — disse Felrond passando facilmente sobre o corpo do goblinoide desacordado — Eu preciso mesmo de uma bebida.

O caminho para Valkaria é longo, mas a jornada até aqui já nos mostrou inúmeros lugares do sul de Arton. Caso ainda não tenha começado a ler, é um bom momento pra acompanhar o Enigma das Arcas desde o início!

Armageddon • 27/12/2017

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